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Espaço Livre!

Marcelo Kanaan

A decolagem
marcelo@seade.gov.br

Setembro 2001

A brisa fresca daquela manhã em frente ao mar era realmente inspiradora... o céu inteiramente azul, o sol radiante e dourado como nunca, o ritmo do mar era um vai e vem compassado tão perfeito que nenhum maestro conseguiu tocar numa harmonia musical. As montanhas que cercavam aquele pedaço da praia pareciam arquibancadas, então nela sentei-me para assistir o que estava para acontecer.

Foi neste momento que avistei um ninho. Havia nele dois pássaros, um maior que aparentemente parecia ser a Mãe, o outro um filhote, tão pequenino e indefeso que dava vontade de não sair dali somente para ficar protegendo-o.

Neste momento uma onda forte veio de encontro a pedra batendo com a força que a natureza havia programado para acontecer, e parte daquela onda espatifada caiu sobre o ninho. O pássaro menor sempre ficava afoito e assustado quando isso acontecia, não podia se defender por nada.

O pássaro maior sempre fazia esse ritual: ficou na ponte do ninho, olhou para o horizonte com a certeza de um comandante e decolou... bateu as asas, ganhou altura e foi de encontro ao sol da manhã, rumo ao leste comandante. Comandante porque só havia ele no céu naquele momento, o limite que ele poderia voar era o céu... apenas o céu, ou... o imenso céu. 

Ele planava, descia, ganhava altura... mas quando avistava algo mergulhava de maneira arrojada e veloz como um caça, aliás, ele era um caça naqueles mergulhos. Era a autoridade máxima na beira do mar e um espetáculo aparte para mim. Eu observava a beleza daquele vôo, era um verdadeiro ballet aéreo. 

Mas... e quanto ao pequeno e indefeso que ficara no ninho? Sim, estava ansioso esperando a chegada do pássaro maior que logo pousaria ali com um alimento para ele.

Mas foi num dia que este pássaro não voltou mais para o ninho, e assim estava na hora do pequeno se tornar grande, do alimento não vir mais até e sim, ele caçar o próprio alimento. Foi nesta hora que o pequeno descobriu que tinha algo em comum com o pássaro que tanto admirava... ele descobriu que possuía asas. Assim... num momento de coragem ficou na beira do ninho, em cada passo que ele dava parecia querer imitar o pássaro maior, acho que aquele era a fonte de inspiração deste menor. Deixou o sol bater forte em seu rosto, sentiu o aquecimento carinhoso da natureza que dourava sua face e... finalmente DECOLOU !!

Partiu para o seu primeiro vôo solo... decolou balançando as asas mais do que batendo, avançando mais rápido que o normal, ganhando altura até sentir segurança o suficiente para descansar suas asas e planar como fazia o seu velho pássaro admirado. 

Nesse momento, acho que ele sentiu que estava no céu pela primeira vez, sentiu que tudo ali estava sob o seu comando e que a natureza era a única coisa que estava acima dele. Não desceu para caçar neste vôo, mas percebi a alegria que sentia ao estar no céu, planando, batendo asas, subindo e descendo, ouvindo o vento, vendo o mundo dali, vendo as montanhas pequenas, vendo o mar como um tapete azul, e a impressão que tinha acho que era a mesma que a minha, parecia estar na altura do sol.

Foi então que dali de onde estava eu chorei e aplaudi aquele vôo. Sabe o que eu vi ? Vi nascer um aviador, vi mais um amigo de asas ganhando os céus. A trajetória de um aviador é a mesma de um pássaro. Vi ali que podemos fazer a mesma coisa. 
Nascemos indefesos pelas dificuldades que nos cercam, assistimos o planar dos anjos que com suas asas no incentivam cada vez mais a buscar o céu também. Esperamos que os anjos nos tragam nosso alimento, a fé. É preciso ter fé que se você buscar o céu você alcançará, é preciso esperar o anjo voltar novamente para o ninho que é o nosso sonho para aprendermos mais com eles.

É preciso saber que se ele não voltar mais não é porque nos abandonou, e sim porque já estamos preparado para o nosso vôo solo. 

Depois de sonhar, crescer, aprender e observar, é preciso saber que os aviadores não existem para ficar no chão, é preciso saber que os aviadores são os únicos da espécie humana que sabem usar suas asas, sabem literalmente voar, sentem a brisa no rosto, observam a natureza, deixam o sol aquecer a face, ficam na ponta do ninho que podemos chamar de cabeceira da pista, e somente outro pássaro seja este homem ou mesmo um pássaro sabem que estão correndo batendo asas, e assim eles também... DECOLAM !!

Literalmente como os pássaros podemos ver o tapete azul, as montanhas agora é que olham para cima para nos avistar, subimos, descemos e planamos onde o céu é todo o limite para brincar.

Disse que somente os aviadores são os únicos da espécie humana que sabem usar suas asas mas não é pura verdade... se trocarmos a palavra aviador para sonhador você ainda pode ter chance de voar. 

Voar é sonhar, o sonho de voar pode ser concretizado, então... sonhar também é voar e todo sonho pode ser concretizado.

Perceba suas asas e decole nos seus sonhos. Perceba que os anjos estão sempre ao seu redor ensinando-o pacientemente a voar e não culpe-os se um dia não sair do chão. Saiba que as ondas fortes sempre aparecem para nos assustar e fazer-nos sentir indefesos, mas ondas não apagam o céu e nem imobilizam as asas, elas apenas molham e o sol seca para podermos alçar vôo. Se parar para observar, verá que a natureza sempre voa a nosso favor, 

Amar é sonhar... no amor também é preciso voar, bater asas, imaginar, criar...
Como num vôo... para voar é preciso bater asas - planejar a decolagem, imaginar - ter em mente todas as situações possíveis e como proceder, criar - fazer rotas alternativas e proporcionar segurança de vôo.
Amar também é liberdade, nada o impede de amar ou ser amado. Voar é puramente liberdade.
Ser feliz é sonhar...
Sorrir é sonhar...
Dividir emoções é sonhar...
Todo sonho é voar...
Objetivar e buscar é partir para o vôo solo, é se preparar, é estar na beira do ninho para dar o primeiro e mais alto salto para o sonho, para o vôo.

Não use suas asas apenas para aquecer suas costas, se estiver com frio procure um abraço amigo, se desejas alcançar algo que um dia sonhou, para isto sim use suas asas.


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